TERAPIAS INTEGRATIVAS X PSICOLOGIA E PSIQUIATRIA:
cuidar não é competir, há espaço para todos
No cenário atual, existe um desconforto crescente entre áreas que, na essência, deveriam caminhar juntas: a psicologia, a psiquiatria e as terapias integrativas. Talvez a pergunta mais importante não seja quem está certo, e sim por que ainda existe a necessidade de competir.
A psicologia é uma ciência consolidada, com formação acadêmica estruturada, base teórica consistente e reconhecimento formal de sua prática profissional. No Brasil, a regulamentação da profissão foi estabelecida pela Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962. Ainda assim, registros históricos da área indicam que a psicologia já vinha sendo praticada e ensinada antes disso, com os primeiros cursos universitários específicos da área surgindo na década de 1950. Reconhecer essa trajetória não diminui outras formas de cuidado.
As terapias integrativas seguem abordagens mais abrangentes, que não surgiram dentro do modelo acadêmico tradicional e não se apresentam, necessariamente, como substitutas da formação universitária. Trata-se de uma abordagem distinta, com um olhar ampliado sobre o ser humano, que considera dimensões físicas, emocionais, mentais e espirituais. Esse olhar inclui aspectos que nem sempre podem ser mensurados ou comprovados pelos métodos científicos tradicionais, especialmente no que diz respeito à espiritualidade. E isso não significa ausência de responsabilidade ou de estudo; significa, antes, uma ampliação da compreensão sobre o ser humano.
O terapeuta integrativo sério atua com ética, busca qualificação contínua, estuda, se aprofunda e reconhece os próprios limites, além de conduzir seu trabalho com responsabilidade. Esse campo de atuação não promete resultados irreais nem imediatos, bem como não substitui outros profissionais da área da saúde, como psicólogos ou médicos.
Na prática, é comum que nem toda pessoa esteja pronta para iniciar um processo nas terapias integrativas. Em muitos casos, será necessário que haja primeiro um preparo emocional mais estruturado, para que a pessoa consiga sustentar o contato com conteúdos mais sensíveis e profundos sem se fragilizar ou se desorganizar. Sendo assim, o ideal é que o terapeuta integrativo oriente o cliente a buscar acompanhamento com um psicólogo antes de ingressar nesse tipo de abordagem, permitindo que esse processo inicial contribua para maior sustentação emocional, funcionando como um preparo e fortalecimento do ego antes de um trabalho mais profundo nas integrativas. Há, ao mesmo tempo, situações em que a avaliação psiquiátrica se faz necessária, especialmente quando existe indicação de acompanhamento medicamentoso. Nesses casos, as terapias integrativas podem atuar como suporte complementar; entretanto, não substituem o cuidado médico especializado. Cabe ainda ao cliente/paciente exercer um papel ativo nesse processo, buscando informações, compreendendo a abordagem escolhida, avaliando o profissional e percebendo qual caminho faz mais sentido mediante a sua própria história e em cada momento da sua vida. O cuidado e o autocuidado exigem consciência, tanto do profissional quanto de quem busca ajuda.
Vale reforçar que valorizar as terapias integrativas não significa desestimular a formação tradicional, e sim reconhecer que o conhecimento e a qualificação são fundamentais em qualquer caminho que envolva o cuidado humano, assim como em todas as demais áreas e profissões. Da mesma forma, torna-se necessário reconhecer que nem toda demanda encontra resposta suficiente dentro de uma única abordagem. Existem pessoas que buscam compreensão psíquica, emocional, existencial e espiritual de suas experiências, e nem sempre encontram esse acolhimento em modelos exclusivamente científicos. Nesse espaço, as terapias integrativas atuam como complemento, aprofundando o olhar sobre as possíveis causas dos desequilíbrios e das doenças.
Esse caráter complementar possui respaldo institucional. O Ministério da Saúde define as PICS como práticas voltadas à prevenção de agravos, promoção e recuperação da saúde, com ênfase na escuta acolhedora, no vínculo terapêutico e na conexão entre ser humano, meio ambiente e sociedade. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS foi aprovada pela Portaria nº 971/2006 e posteriormente ampliada, entre outros atos, pelas Portarias nº 849/2017 e nº 702/2018. A Terapia Reiki foi incluída nesse processo de ampliação por meio da Portaria nº 849/2017.
Além desse reconhecimento no âmbito da saúde pública, também se observam avanços importantes nos campos ocupacional e econômico que sustentam sua atuação no Brasil. A atividade de terapeuta Reiki está contemplada na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), o que formaliza sua existência no mercado de trabalho, e pode ser exercida legalmente por meio de enquadramento na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), permitindo a abertura de empresa e a prestação de serviços de forma regular. Esses elementos evidenciam que a prática já possui reconhecimento institucional e respaldo para atuação profissional. Embora ainda não exista regulamentação por lei específica, como ocorre em profissões tradicionais, isso não impede o exercício da atividade, que é legítima, permitida e já inserida em diferentes níveis de organização social, com crescente estruturação e responsabilidade por parte dos profissionais que atuam na área.
Ao longo do tempo, diferentes correntes coexistiram com abordagens diversas, e a própria história da psicologia mostra que ela não nasceu pronta nem homogênea, tendo passado por um processo de construção teórica, metodológica e institucional até sua consolidação como campo científico e profissional. No Brasil, antes mesmo da regulamentação de 1962, já havia cursos, práticas e formação em psicologia e, nesse percurso histórico, vale lembrar que a psicologia não ficou restrita apenas ao que era imediatamente mensurável. Os estudos de Carl Gustav Jung abriram espaço para elementos simbólicos, arquetípicos e espirituais na compreensão da psique, o que demonstra que, dentro da própria história da psicologia, já existiram movimentos de ampliação da escuta e da interpretação da experiência humana para além do estritamente racionalista. Essa observação não anula a ciência psicológica, apenas recorda que o campo humano sempre foi complexo e plural, e que a própria definição histórica da disciplina, em seus primórdios, envolveu debates sobre consciência, experiência e vida mental.
Diante desse percurso histórico, é plausível considerar que as terapias integrativas seguirão, ao longo do tempo, um caminho progressivo de maior estruturação, organização e aprofundamento. Trata-se de uma projeção, não de uma certeza histórica já consolidada. Ainda assim, observando a forma como outras áreas se desenvolveram, não é irrazoável supor que processos de formalização, pesquisa e padronização possam se ampliar no futuro. Essa inferência se apoia na própria história de institucionalização de campos do cuidado e no crescimento do reconhecimento público das PICS.
A ABORDAGEM DAS TERAPIAS INTEGRATIVAS: um olhar ampliado sobre o cuidado
Visão ampliada do ser humano
As terapias integrativas se diferenciam por adotar uma abordagem mais abrangente do ser humano, considerando não apenas os aspectos físicos, psicológicos e emocionais, como também dimensões subjetivas, simbólicas e espirituais da experiência. Essa perspectiva compreende o indivíduo de forma integrada, reconhecendo que os diferentes níveis do ser estão interconectados e influenciam diretamente os processos de saúde, adoecimento e reequilíbrio.
Nesse modelo de cuidado, o foco não se limita à manifestação dos sintomas, mas se amplia para a compreensão das possíveis origens dos desequilíbrios, levando em conta a história de vida, os padrões emocionais, os comportamentos e a forma como cada pessoa se relaciona consigo mesma, com o outro e com o mundo. Trata-se de uma abordagem que valoriza a singularidade, reconhecendo que diferentes caminhos podem ser necessários para promover bem-estar e qualidade de vida.
Essa visão encontra respaldo nas diretrizes das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), que propõem um cuidado centrado na pessoa, com ênfase na escuta qualificada, no vínculo terapêutico e na integração entre diferentes saberes. Nesse contexto, o processo terapêutico tende a ser mais participativo, convidando o indivíduo a assumir um papel ativo em seu próprio cuidado, favorecendo o desenvolvimento da autoconsciência e uma relação mais consciente e responsável com a própria saúde.
Condução terapêutica e escuta ampliada
A condução do processo terapêutico, nesse campo, não se limita ao racional ou ao analítico. Muitas vezes, o próprio cliente traz percepções, emoções e possíveis origens de seus desequilíbrios, e a escuta se desenvolve a partir dessa experiência vivida. Isso favorece um processo mais individualizado e, em muitos casos, mais conectado com aquilo que a pessoa sente antes mesmo de conseguir expressar com total clareza.
Dimensão espiritual no cuidado
Muitas práticas integrativas incluem aspectos espirituais no processo terapêutico. Esses elementos podem ser sentidos, percebidos e relatados por quem vive a experiência, embora nem sempre sejam passíveis de comprovação pelos critérios científicos convencionais. É justamente aí que se estabelece uma diferença importante de linguagem e método entre certos campos das integrativas e áreas mais estritamente científicas.
Limites metodológicos e natureza da prática
As terapias integrativas, em sua maioria, não seguem necessariamente os mesmos protocolos metodológicos das ciências tradicionais, como revisão por pares, validação experimental padronizada e replicação nos moldes clássicos da pesquisa biomédica. Reconhecer esse limite é uma postura honesta. Isso não impede que existam estudos sobre práticas específicas, nem invalida a experiência subjetiva do cuidado; contudo, delimita com mais clareza a natureza do campo. O próprio debate institucional sobre PICS no Brasil inclui tanto sua potência terapêutica quanto seus limites e desafios de avaliação científica.
Ética, responsabilidade e complementaridade
Por essa razão, a atuação responsável exige ética, clareza e reconhecimento de limites. O terapeuta integrativo não deve substituir intervenções médicas ou psicológicas quando elas são necessárias. O lugar mais maduro para esse trabalho é o da complementaridade, do encaminhamento responsável e da honestidade sobre o que a prática oferece e sobre o que não oferece.
No fim, quem perde com disputas de território não são apenas os profissionais, mas as pessoas que estão em sofrimento, buscando ajuda, caminhos e respostas. Algumas se identificarão com a psicologia, outras com a psiquiatria, outras com as terapias integrativas, e muitas poderão se beneficiar da integração entre esses caminhos. Não se trata de escolher um lado, e sim de compreender que existem diferentes formas legítimas de cuidado.
Há espaço para todos os profissionais que atuam com ética, estudo e compromisso real com o bem-estar humano.
Considerações finais: ética e respeito entre diferentes caminhos
Diante de tudo isso, o convite que se apresenta é ao amadurecimento das relações entre profissionais, não à defesa de uma área em detrimento de outra, já que compartilham, em essência, o mesmo propósito: cuidar de pessoas.
A ética não se expressa apenas na condução dos atendimentos, mas também na forma como os profissionais se posicionam publicamente. Falar mal de outras áreas, generalizar práticas, ridicularizar abordagens diferentes ou desqualificar o trabalho alheio não fortalece nenhuma profissão. Ao contrário, empobrece o debate, fragiliza a credibilidade de quem age assim e desvia o foco do que realmente importa: o fortalecimento da saúde e das relações humanas.
O respeito entre diferentes abordagens é um reflexo direto da responsabilidade e da ética profissional. Cada área possui sua linguagem, seus limites, seus fundamentos, suas próprias compreensões e contribuições. Quando há seriedade, consciência e compromisso com o bem-estar do outro, não há espaço para desqualificações e rivalidades destrutivas. Pode-se discordar com ética, delimitar campos de atuação com respeito e defender a própria área sem atacar a do outro.
Cuidar, no sentido mais profundo da palavra, exige maturidade, inclusive para reconhecer que nenhuma área precisa crescer diminuindo outra. O verdadeiro avanço acontece quando diferentes caminhos conseguem coexistir com diálogo, responsabilidade e respeito, reconhecendo seus próprios limites e contribuições e compreendendo que, em muitos casos, podem se complementar e atuar em parceria. Quando há abertura para essa construção conjunta, diferentes saberes deixam de ocupar lugares de disputa e passam a somar forças em favor de um propósito maior: o compromisso com o ser humano.
Texto pela Sensei Aline Keny em 22.08.2026
REFERÊNCIAS
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Nota: Os PDFs das Portarias nº 971/2006, nº 849/2017 e nº 702/2018 correspondem a cópias preservadas de documentos oficiais do Ministério da Saúde, originalmente disponibilizados no sistema Saúde Legis. Para consulta à legislação das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde diretamente no Ministério da Saúde, acesse: Legislação das PICS – Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: PICS. Acesso em: 22 ago. 2026.
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